Como conferir o saldo devedor de um financiamento de consumo
O banco informou quanto falta para quitar e você quer saber se o número faz sentido. Com valor financiado, parcela e prazo, dá para refazer a conta, achar a taxa implícita e comparar com o valor pedido.
O que é o saldo devedor
Saldo devedor é o que você ainda deve de principal, no dia em que a conta é feita. Não é a soma das parcelas que faltam. Cada parcela de um financiamento com parcelas fixas (tabela Price) tem duas partes: os juros do mês, calculados sobre o saldo anterior, e a amortização, que é o que realmente abate a dívida. No começo, a maior parte da parcela é juros. Por isso, depois de pagar um terço do prazo, o saldo ainda é bem maior que um terço do valor financiado.
Este guia usa o modelo de parcelas iguais, sem carência, com a primeira parcela um mês após a liberação. Seu contrato pode ter IOF e tarifas financiados, carência ou data de vencimento diferente. Nesse caso, o resultado abaixo é uma referência para conversar com o banco, não o valor oficial.
O exemplo completo
Contrato fictício: R$ 30.000,00 financiados, 36 parcelas de R$ 1.120,00. Já foram pagas 12 parcelas. Os números abaixo foram calculados com o código da ferramenta de saldo devedor de CDC do Me Ajuda Flow, com juros de cada mês arredondados ao centavo.
1. Taxa implícita
Se o contrato não mostra a taxa, ela sai da combinação valor, parcela e prazo: é a taxa mensal que faz 36 parcelas de R$ 1.120,00 valerem exatamente R$ 30.000,00 hoje. Resultado: 1,6944% ao mês, cerca de 22,34% ao ano (composta). O total pago seria R$ 40.320,00, dos quais R$ 10.320,00 são juros.
2. Primeiras linhas da tabela
- Parcela 1: juros R$ 508,32 (1,6944% de R$ 30.000,00), amortização R$ 611,68, saldo R$ 29.388,32.
- Parcela 2: juros R$ 497,95, amortização R$ 622,05, saldo R$ 28.766,27.
- Parcela 12: juros R$ 384,14, amortização R$ 735,86, saldo R$ 21.935,62.
Veja o contraste: pagas 12 parcelas (R$ 13.440,00 desembolsados), o principal caiu apenas R$ 8.064,38.
3. Saldo após k parcelas
É a última coluna da linha k: R$ 21.935,62 após a parcela 12. Com a planilha do banco ou a sua, a conferência é simples: saldo anterior vezes (1 + taxa), menos a parcela.
4. Valor presente das parcelas restantes
Faltam 24 parcelas de R$ 1.120,00, ou R$ 26.880,00 em valores nominais. Quitando hoje, a ideia do desconto é trazer cada parcela a valor presente pela taxa do contrato. O resultado foi R$ 21.935,63, a mesma conta do saldo, com 1 centavo de diferença por arredondamento. A diferença entre os R$ 26.880,00 nominais e esse valor, R$ 4.944,37, é a parcela de juros futuros que deixa de ser cobrada. É esse raciocínio que você deve esperar ver refletido no valor de quitação.
Amortização extra: reduzir prazo ou reduzir parcela
Suponha que, depois da parcela 12, você amortize R$ 5.000,00 de uma vez. O saldo cai para R$ 16.935,62. Duas escolhas, calculadas com a mesma taxa:
- Reduzir o prazo (manter a parcela de R$ 1.120,00): o financiamento acaba em 18 meses em vez de 24, com a última parcela de R$ 693,07. A economia de juros é de R$ 2.146,93.
- Reduzir a parcela (manter 24 meses): a parcela vai a R$ 864,71, R$ 255,29 a menos. A economia de juros é de R$ 1.127,02.
Em geral, reduzir o prazo economiza mais, porque a dívida deixa de render juros mais cedo. Reduzir a parcela alivia o caixa mensal. A escolha depende do seu orçamento, e o contrato diz como o banco aplica a amortização, então confirme com ele antes de pagar.
O direito à liquidação antecipada
O art. 52, §2º, do Código de Defesa do Consumidor, no texto compilado do Planalto, assegura ao consumidor a liquidação antecipada do débito, total ou parcialmente, com redução proporcional dos juros e demais acréscimos. O caput do mesmo artigo exige que, em crédito e financiamento, o fornecedor informe previamente o preço em moeda corrente, os juros de mora e a taxa efetiva anual, os acréscimos legais, o número e a periodicidade das prestações e o total a pagar, com e sem financiamento. Este guia não é aconselhamento jurídico: em caso de divergência, procure o banco, o Procon ou um advogado.
O que pedir ao banco
- O demonstrativo detalhado da quitação: saldo, juros, encargos e a data de validade do valor.
- A taxa de juros do contrato e a forma como o desconto dos juros futuros foi calculado.
- O valor financiado na liberação, incluindo IOF, tarifas e seguros, se foram embutidos.
- A tabela de parcelas (planilha de amortização), para comparar linha a linha.
- Em amortização parcial, se o abatimento reduz o prazo ou a parcela.
Como conferir o número do banco
- Cole valor financiado, prazo, parcela e parcelas pagas na ferramenta e anote a taxa implícita. Se ela for muito diferente da taxa do contrato, há algo embutido (tarifa, seguro, IOF) ou o contrato não é de parcelas iguais.
- Compare o saldo da linha k com o valor de quitação do banco. Diferenças pequenas vêm de arredondamento e da data; diferenças grandes pedem explicação por escrito.
- Se quiser uma segunda checagem, a calculadora do cidadão do Banco Central resolve um dos quatro campos (meses, taxa mensal, prestação, valor financiado) a partir dos outros três, para prestações fixas.
Se o valor exigido para quitar for próximo ao das parcelas nominais restantes (aqui, perto dos R$ 26.880,00), vale pedir a explicação do desconto antes de pagar.
Para refazer essa conta com os seus números, use a ferramenta saldo devedor de CDC. Para simular parcelas de um novo financiamento, veja financiamento, e para entender o efeito do tempo sobre os juros, juros compostos.